A minha composição não é 100% vidro. Pois não sou capaz de quebrar-me em milhares de micropedaços que, embora pequenos, ainda são capazes de ferir meu algoz. A minha composição poderia ser de sabão e ar. Sou como uma bolha que alguém lançou no mundo. Que flutua leve até o céu e sem mais, ao menor toque e se desfaz em uma suave chuva que atinge o chão. E nunca mais é lembrada.
A minha composição não é de espelho, pois sou incapaz de traduzir alguém a primeira vista, de entender seus detalhes, seus gestos, seus maneirismos, suas tipicidades. A minha composição poderia ser de alumínio pois, embora firme, uma vez deformado não se regenera.
A minha composição não é concreto que, conforme a vontade do arquiteto, se molda, se curva, se protende, sem perder sua rigidez, sua resistência ao tempo. A minha composição poderia ser madeira de alguma árvore do cerrado, que embora adaptada ao ambiente, se curva e se molda conforme sua vontade, mas cujas folhas caem vez ou outra para que possa continuar vivendo na estiagem.