As mazelas matinais e todos os seus barulhinhos do acordar, me açoitam todos os dias. Ainda de olhos semi-cerrados, ouço o entregador de jornais, o arrastar de pés e cadeiras, o bater de panelas, o abrir e fechar das portas, que gemem demoradamente como num falso orgasmo, logo pela manhã, as safadas.
Mesmo detestando a idéia, arrisco-me a abrir os olhos. e acabo por ceder às pressões que me são impostas todas as manhãs. Levanto-me pensando na razão que leva os meus pés a não obedecerem as minhas ordens durante esses primeiros minutos após acordar. Visto a primeira porcaria que encontro pela frente, do avesso. Retiro. Do avesso de novo. Foda-se. No fim, os dias são sempre tão iguais, como diria a filha da Zizi Possi... As manhãs e os dias poderiam ser melhores, porque existe em mim a sensação de que falta algo. Alguém. Alguém que faz falta.
Eu ligo o rádio do carro para suicidar os tímpanos e voltar a vida. Nas curvas das tesourinhas matematicamente estudadas de Brasília. Le Corbusier dizia que a curva era o caminho dos burros e a reta o caminho dos homens. A cada tesourinha me dou conta da verdade nessas palavras.