Não havia um dia sequer, desde a puberdade, em que ele não reclamasse das mulheres.
De maneira geral. Dizia que não as compreendia, afirmava que
toda mulher é fofoqueira, invejosa. "
Nenhuma mulher entende de futebol". Não parava de repetir para si, como se fosse um hindu entoando um mantra em sânscrito: "Ruim com elas, pior sem..."
À altura dos protestos dele, ela retrucava. Falava sobre os homens,
em sua totalidade. Acusava-os do crime de
desatenção, detestava quando ele a deixava só aos domingos para
jogar futebol com os amigos. É claro: odiava os
amigos solteiros que o arrastavam para as farras mais impudicas. Sobretudo, proclamava que o pior de tudo era
a sogra. "Mãe é sempre mais ciumenta com os filhos do sexo masculino", bradava.
Durante a semana, fazia aulas de lutas variadas e dedicava várias horas aos cuidados com o carro. Ouvia Hardcore. Coisa de homem. Em seu íntimo, embora não ousasse pronunciar alto, para não soar antiquado aos ouvidos modernos, achava que devia ganhar mais dinheiro que ela, para poder pagar a conta sempre que saíam juntos. Mesmo nesses momentos, não se importava com aparência, esquecia de colocar o cinto, ajustar a gravata e às vezes até mesmo de pentear o cabelo.
Todavia, ela adotou a filosofia de Coco Chanel: "Vista-se mal e notarão a roupa, vista-se bem e notarão a mulher." Costumava observar-se no espelho. Nunca estava magra o suficiente. Fazia de seu cabelo, diariamente, uma escultura, ricamente talhada. Ela era capaz de pagar uma fortuna ao artista para mantê-lo assim. Mesmo que ganhasse menos, ela achava que o certo era dividir a conta, para provar ao mundo, ou a si mesma, que não precisava ser sustentada por homem algum. Entregue às garras da vaidade, demorava horas para se vestir. Esforçava-se em ficar cada vez mais feminina.
Quando se encontravam, elegiam as melhores palavras para expressar o que pensavam.
- Hoje eu pago o cinema, meu bem. - Disse ele.
- Não precisa, peguei umas cortesias, hoje ninguém paga! - Mentiu, ela havia chegado mais cedo e comprado os ingressos.
Ele mencionara o futebol com os amigos solteiros no domingo.
- Claro, meu bem. Sem problemas, mas no sábado você me acompanha nas compras, não é? Quero comprar umas calças novas, as minhas não servem mais. Acho que engordei.- Completou ela. Ele não disse, mas pensou: "Me fodi".
O próximo presente que daria a ele seria um par de sapatos novos, muito elegantes. Decidiu isso quando percebeu que durante vários encontros seguidos ele usou o mesmo sapato. Ele não reparou que ela cortara o cabelo, embora tenha achado que havia algo diferente na fisionomia dela... E assim aquele encontro seguiu. O carro dela estava na oficina, onde ela gastava rios de dinheiro. Não entendia de carros. O carro dele, sempre limpo e bem cuidado estava à postos para deixá-la em casa.
Chegaram. Elevador. Quinto andar.
Um tanto alterados pelo álcool ingerido pouco tempo antes, começaram a beijar-se. Sem trocar qualquer palavra, redecoraram o chão do apartamento com suas peças de roupas. Na dúvida entre o sofá ou a cama, escolheram o chão da cozinha.
Ele sussurou ao ouvido dela, que havia comprado uma lingerie nova e estava usando só para ela.
Sem hesitar, ela o chamou de "minha mocinha", "vadia", "safada" e caprichou nos tapinhas que deu nele naquela noite. Quando tudo acabou, ela acendeu um cigarro e decidiu ler um livro.
Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus. Ele, só queria dormir abraçadinho, mas contentou-se em tomar um banho e voltar para casa.
Para a casa da mãe.
P.S.: Não tinha a intenção de fazer um blog de crônicas, mas gosto de escrevê-las. Deve ser uma coisa de momento. Ah, e essa foi pro sarge, por dois motivos: Porque já me ofereceu um conto lindo e porque em um de seus comentários disse que "adora mulher em campo, mas só como torcedora". Um abraço, moço! Espero que goste!
39 comentários:
hehehehehe
adorei a cronica...
esta aí uma coisa que gostaria de saber escrever;cronica....
parabens!
Crônicas mostra que a pessoa sabe escrever e o que ele entende o que escreve, porém eu não gosta delas, mas dous meus parabéns para quem escreve. Paricia meu machista no começo, mas o final é bem interessante.
http://www.conquistadoresde.info/
Sou "novato" em literaturas. Li sua crônica e sue comentário abaixo sobre poesias de blogs... hehe
Por algum motivo, prefiro leituras impressas. Não sei se é discriminação, mas dá a impressão (loucura talvez) que as impressas SÓ são impressas porque são boas, enquanto blogs são ainda iniciantes, ascendentes, mas que não atingiram "o ponto".
De qualquer forma, das poucas crônicas que li, foram como a sua: li, entendi, okay tá bom, obrigado. o.O Mas no fim eu gosto, e também tento fazer o mesmo em meu blog, se consigo é outra estória... um dia eu tenho a honra de uma obra impressa. E você também chega lá.
ah, nem pretendo publicar nada, moço. Estou longe de ser escritora, eu sou é uma boa leitora.
Ele? Com uma lingerie? Que fofo... rs Nessa hora ela chamou mocinha, vadia... depois pediu para ir ao banheiro e passou os minutos lá, trancada, rindo para cacete.
Que cena!
Ah sim... seu comentário no saco de filó foi genial, muito inteligente e perspicaz...
Adorei.
O final foi uma verdadeira inversão de papeis rsrsrsrrsrs.
Acho que sem duvida nenhuma, o final foi a melhor parte da cronica, acho que vc devia escrever mais cronicas...
eu amo crônicas
adoro escrever elas tbm
beijos!
Olá moça!
Os clichês são a nata de uma boa crônica, são tão eficientes nesse papel que se não dermos conta acaba virando novela, igual a relações homem e mulher.
Conheço um bucado sobre o que esta falando(menos a parte de usar langerie) sou do tipo homem que faz coisas de homem mesmo, paga o passeio, reclama de ter que ir fazer compras, gosto de sair pra tocar com os amigos e odeio esperar as mulheres ao se vestirem, mas não me vejo machista, pois por outro lado defendo a independência feminina, sou do tipo que presenteia sem motivo ou data, cozinho e arrumo a casa, aguento como um buda paciente sem quebrar nada a TPM dela e ainda nem sou casado.
No final homens e mulheres tem suas diferenças apesar da igualdade perante a lei, assim como há mulheres que não gostam das idéia de homem fazendo luzes nos cabelos, não gosto de ver mulher jogando bola, mas nunca impediria uma filha caso tivesse, de praticar, é só gosto.
Mas adorei o texto, você sabe que escreve muito bem, só precisa se explorar mais, apesar do final decepcionante do ponto de vista masculino, foi uma bela virada.
Obrigado pela dedicatória.
Beijos rs
Incrível!
Tudo o que consigo dizer.
Muito bom o texto.. curto muito cronicas.. me indentifiquei com seu jeito de escrever..
aaa e to continuando a historia na proxima semana, to escrevendo semanalmente.
vamos fazer uma parceria ai?
essa cronica é a mais pura verdade
Olá! Use e abuso das crônicas...elas são incríveis...a guerra dos sexos parece cada vez mais ambiciosa...
É mesmo pena que não tenha a intenção de continuar investindo em crônicas... se todas as produções futuras forem como esta, tem tudo para ser um belo espaço, atendendo inclusive ao propósito introspectivo do teu blog.
O ritmo dado à leitura está muito estimulante e prazeiroso.
Parabéns.
Legal!
Também gostei pelo fato de mostrar a mudança ocorrida no espaço social, cujo papel das mulheres muito têm evoluído...
Parabéns pelo texto!!!
=)
http://esperaemdeus.blogspot.com/
Eita, por essa eu não esperava hehe
Bjocas
Seu blog é muito, bom eu tenho prazer em ler seus textos, apesar de ser meio grande hauhauhaua
Adoro crônicas! Gostei muito do que escreveu, principalmente da inversão de papéis que expôs em seu texto!
http://maynabuco.blogspot.com
A guerra de sexos por mais complexa e angustiante soa até engraçada!
O homem nasce com sua cartilha e nós mulheres também, a diferença, talvez, seja que nosso bom senso permite pequenas alterações diante de algumas premissas.
HAUhuahuahuaua
Beijos!
E mulher entende sim de futebol!
Botafogoooooooooo!
Hehehe
Quando bati o olho, achei que seria um artigo, mas que feliz engano! Era uma crônica... Uma bela crônica, por sinal.
Li duas vezes.
Gostei muito do seu estilo. Não sei definir, mas é justamente o que eu gostaria de fazer, mas não consigo. Tem um "quê" de Nelson Rodrigues, assim, como quem não quer nada, mas sem perder sua própria originalidade.
Queria ter algo mais inteligente para dizer, mas só posso mesmo reforçar que eu gostei MUITO!
E esta parte em especial:
Ele não disse, mas pensou: "Me fodi".
Você captou com maestria: todo, absolutamente TODO homem pensa exatamente estas palavras quando é necessário acompanhar suas damas ao shopping rs
Você além de "muito boa leitora", é excelente comentarista, e ainda mostrou-se extremamente talentosa como cronista.
Por ter descrito de forma majestosa como um homem sente-se e porta-se em determinadas situações, fica claro que também tem uma grande sensibilidade.
Enfim, é por isso que adoro vir aqui.
http://comideiaseideais.blogspot.com
Puxa vida, mas que amor "bandido"! hehe
vc descreveu muito bem as diferenças entre homens e mulhres!
gostei!
http://www.rosas-inglesas.blogspot.com/
Não costumo discutir sobre isso. Não costumo discutir sobre coisas que desconheço. Não costumo discutir sobre convivência afetiva. Não costumo discutir sobre situações pelas quais não passei. Não costumo.
Mas, costumo ler seus textos. E costumo constatar que são sempre maravilhosos.
Beijo, amore.
P.S.: Pirei com os olhinhos do meu Johnny cá em baixo. Amo meu amigos blogueiros talentosos e de ótimo gosto.
muito boa a crônica, retrata bem a vida cotidiana moderna dos casais, cada vez mais complexa!!
http://midiaculturaletc.blogspot.com/
Se Eu Fosse Um Peixe
Se eu fosse um peixe,
Eu não rolaria pelas montanhas,
Peixes e Montanhas não combinam muito.
Se eu fosse um peixe,
Eu não me perguntaria sobre os côcos,
Porque esses sim podem rolar pelas montanhas.
Se eu fosse um peixe,
Eu não buscaria o soutien perfeito,
Peixes e soutiens não nasceram um para o outro.
Se eu fosse um peixe,
Eu não seria dourado como o sol,
Seria palhaço como o Carequinha.
Se eu fosse um peixe,
Eu faria borbulhas iguais às do Fagner,
Se o Fagner fosse um peixe.
AMEEEEI, esse poema..
amei...
muito bom...
Em primeiro lugar, trata-se de fato verídico e comprovadíssimo que a pior sogra é a mãe DELE e nunca a mãe DELA.
Em segundo lugar, interessante a reviravolta. Não esperava nada do tipo. =P
A maior parte desses clichês são irritantes, ao menos para mim, quando acontecem conosco.
Quando homem (ou mesmo mulher) começa tecer comentários genéricos e preconceituosos eu nem retruco. Deixo falando sozinho (a) mesmo. XD
Bem escrito, parabéns.
Beijos!
Bee, li seu post em 2 tempos. NO primeiro ontem a noite, me contentei em ler só até onde descrevia os clichês de macho e fêmea. Hoje, li a parte do pápuf. E adorei a inversão de clichês =D
Eta se homem fosse assim........hum, se bem que não ia cair bem, sei la ahuahuahu
hahaha
Ótimo!
Apesar de se dizer "só uma boa leitora" também acho que vc deveria publicar.
Bjos
A guerra dos sexos!! Inversao de papéis... Gostei!
huahauaauaauahauaauahauahu
eis o retrato de alguns relacionamentos modernos, onde os homens dançam balé e as mulheres vão lutar boxe... ahuahauahaauahau
Muuito bom, Gi!
adoro crônicas!
Blog Action Day é assim: vc se cadastra no site (tem o link no meu blog) e dia 15/10 todos os blogs do mundo (dá +- uns 7mil, que eu me lembre) vão postar algo sobre pobreza. É tipo um movimento dos blogueiros do mundo.
Eu achei legal. Vai que alguém repara né?
Bjss
Nossa, estou fascinada com a tua escrita! tem uma sinuosidade tão encantadora de quem sabe brincar com as palavras com as ironias! ah, e convenhamos, as ironias são a alma deste negócio!
entrou pra galeria dos favoritos!
abraço,
Seu blog é ótimo, muito bom mesmo.. gostei das cronicas!
beijos
Hahahahha muito bom querida!!
Amo seus textos beijooes!!
eita!
agora vou me policiar pra não dizer essas coisas
=p
beijo
É, no fim, um não vive sem o outro.
É sempre assim!
http://rosas-inglesas.blogspot.com/
Sem nenhum motivo que eu possa compreender, não gostei do desfecho...
Anyway, sobre clichês... eu n entendo o preconceito que se tem sobre clichês... Eles são as verdades em que todos acreditam!
Òtima crônica.
Principalmente a troca de valores no final.
No fundo, os clichês estão sendo quebrados, podemos até tentar manter as aparências inicialmente, mas na hora H, tudo aparece.
Adorei a mulher dominadora, quero uma dessas para mim.
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